Sobre a tragédia em Santa Maria (RS).

27 jan

choro

(Texto de Tammy Luciano. Se divulgar o texto, por favor informe a autoria)

Sou uma escritora. Conhecida para uns, totalmente desconhecida para outros. Acima de tudo sou brasileira, amo meu país, as pessoas do meu país e, como a maioria, comemoro as alegrias da nação, vivo as tristezas de tragédias que acontecem, muitas vezes, por falta de uma política de segurança que realmente proteja os brasileiros. De repente, mais de 230 jovens morrem presos em uma boate em chamas e as notícias são as piores possíveis: show pirotécnico não autorizado para ambientes fechados, fogo no teto, falta de sinalização no local, seguranças impedindo a saída, pessoas achando que estavam encontrando a porta para a rua e morrendo asfixiados em banheiros…

Acordamos esse domingo com uma estranha sensação de vazio e tristeza. Planos para uma vida futura espalhados assim como corpos mortos no meio de cinzas, deixando em ontem vidas inteiras e pais, que fazem tudo para dar o melhor para seus filhos, começando um choro, sem hora para terminar. Posso dizer por experiência de vida, das lembranças enormes dos contatos com meus alunos adolescentes de teatro, dos leitores que encontro pelo Brasil, dos garotos e garotas que dizem gostar do meu trabalho, como os jovens sonham descaradamente. Quem escreve para jovem sabe o tamanho do sonho que cada um deles carrega no coração. Uma alegria corre nas veias de maneira diferente dos mais adultos: conhecem o mundo, mas de alguma forma acham que terão mais sorte do que todos os outros. O mundo parece tão amigo e só coisas boas acontecerão com cada um deles. Tão estranho imaginar que vários morreram de maneira tão idiota e rápida na última madrugada.

Onde foi parar tudo que queriam para si? Onde foram morar os sonhos dos que não vivem mais? Onde estão os sons das vozes individuais? Por que uma tragédia com gente tão jovem precisa acontecer? Aprendemos com isso? Muitos corações em Santa Maria deixaram de bater na mesma hora, a cidade parece contaminada por um grito coletivo e imagens do mais puro terror chocam. Depois saberemos das histórias individuais: aquele garoto que a mãe lutou tanto para engravidar morreu no mesmo banheiro da garota que era melhor aluna da sala, amiga do garoto que sonhava em ser médico, conhecido daquela menina que adorava animais, ajudava em uma ONG e por aí vai…

O Brasil está de luto por pessoas que nem conhecia direito. De luto por perder de uma vez só jovens que tinham muito a aprender, pensar, viver e ser. Para as famílias, a dor é muito maior e não terá saída, assim como não tiveram os mortos na tragédia. Tudo perde o sentido. Quartos ficarão vazios, roupas guardadas no armário nunca mais serão escolhidas por seus donos, cursos da faculdade interrompidos, conversas em famílias que nunca mais voltarão, passos interrompidos, gritos de pedido de socorro que não escutamos, desespero de quem entendeu que morreria e um soco no nosso estômago que faz o domingo, a semana, o mês… perder a graça.

A dor de uma cidade inteira emociona o Brasil, o mundo e eu aqui, do Rio de Janeiro, só consigo pedir que Deus abençoe cada um dos que foram e cada um dos que ficaram nessas famílias escolhidas para viver esse momento tão lamentável. Mortes coletivas nos abalam e nos lembram que estamos todos no mesmo barco, somos frágeis, mortais e únicos. Quem foi nessa tragédia não volta nunca mais.

(Bem, hoje por motivos óbvios não vou encerrar com meu conhecido “Seja sempre feliz”)

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8 Respostas to “Sobre a tragédia em Santa Maria (RS).”

  1. Bel Vogel 27 de janeiro de 2013 às 10:22 pm #

    Tammy… pra variar você conseguiu colocar em palavras o sentimento sufocado no peito de cada um de nós ao saber dessa tragédia horrível. Mais uma vez amiga…

    Estou triste demais, mas o seu texto me fez sentir menos sozinha nesse sentimento. Me faz perceber que no fundo, no fundo, fazemos parte de algo maior.

    Torço para que algum dia as suas palavras sejam lidas pelas mães, familiares e amigos dos jovens que partiram e que possam ajudá-los assim como um dia ajudaram a minha irmã.

    Esse é o seu dom Tammyta, e vc o usa maravilhosamente bem!
    Obrigada por isso e por tudo.

    Fica com Deus.
    Bjos,
    Bebel

    • blogtammyluciano 27 de janeiro de 2013 às 10:56 pm #

      Bebel, a gente fica sentindo como se tivesse sido na nossa vida. Você que viveu uma dor terrível com o falecimento da Fernanda Vogel, está agora sentindo o que tanta gente sentiu quando sua sobrinha se foi. Pessoas não a conheciam, mas lamentam demais a tragédia. Que Deus ampare esses familiares. Estou muito triste. É lamentável demais.

      • Bel Vogel 29 de janeiro de 2013 às 1:59 am #

        É verdade Tammy, mesmo estando longe nos sentimos próximos na hora da dor. Afinal somos todos irmãozinhos e acredito cada vez mais que estamos aqui nessa vida para evoluir.
        No momento, nossa solidariedade as famílias atingidas e nossas preces para que Deus ilumine o caminho dos que foram e dê conforto e forças aos que ficaram.
        Bjos,
        Bel

  2. Adriana Brazil 28 de janeiro de 2013 às 1:38 am #

    “Quem escreve para jovem sabe o tamanho do sonho que cada um deles carrega no coração”. Hoje fiquei pensativa, triste, profundamente triste por todo o dia e ainda estou. Há mais de 10 anos trabalho com meu esposo com aconselhamento para jovens e adolescentes, quantas histórias ouvi, por quantas já ri e chorei. E hoje, diante dessa tragedia, da uma maneira tão sólida e ao mesmo suave, vc conseguiu resumir nessa frase, o que não soube expressar, naquela hora que recebi a notícia, naquele momento que eu quis que o mundo soubesse o quanto estava doendo o meu coração por eles.
    Seu texto não é apenas palavras ao vento, dá pra sentir que existem lágrimas escorrendo de cada palavra que graciosamente encontrou o lugar certo para expressar sua dor.
    Estou unida à essa dor, das famílias, de pessoas como você, que choram pelos 232 brasileirinhos que nunca mais irão sonhar…
    Que um dia nossa dor se converta em saudade.
    Adriana Brazil

    • blogtammyluciano 28 de janeiro de 2013 às 1:44 am #

      Adriana, é, a gente que trabalha com jovem fica refletindo ainda mais. É tudo tão estranho, tão triste e vazio. Assistindo a TV, chorei a tristeza das famílias, assim como sei que muita gente o fez. Obrigada pelas palavras. Quando estou triste, escrever é uma das coisas que me faz melhorar. Sim, que um dia seja saudade.
      Obrigada pelo carinho e comentário super fofo.
      Bjinhos. Tammy

  3. Samanta Holtz 28 de janeiro de 2013 às 4:32 pm #

    Tammy… lindas, sinceras e perfeitas as suas palavras sobre esse momento tão triste. É exatamente o que você falou, não apenas as mortes nos chocam e entristecem, como tudo o que vai com essas vidas… os sonhos, os risos, os planos, os projetos, um futuro que não existe mais.

    Só Deus, mesmo, poderá consolar o coração dos que ficaram… com o único remédio que realmente surte efeito, em situações como essas: o TEMPO! E, claro, as nossas orações por eles.

    Beijos, Tammy, parabéns por homenagear as pessoas envolvidas nessa tragédia de forma tão bonita.

  4. blogtammyluciano 28 de janeiro de 2013 às 4:54 pm #

    Samanta, é muito triste. A gente que trabalha com jovem fica muito comovido. O tempo ajuda sim, mas as coisas precisam mudar. Aquilo era uma caixa fechada. Nos EUA existe uma lei que exige o uso de três portas no mínimo. Obrigada pelas palavras. Escrevi porque estava engasgada. Bjinhos.

  5. Edson Gomes 28 de janeiro de 2013 às 7:56 pm #

    Bela observação Tammy,

    Muitos levam em conta a quantidade de mortos, mas mesmo que tivesse sido uma só pessoa, seria uma tragédia de grandes proporções. Estamos vivendo uma época, onde a banalização da vida é normal e natural. Fazem de casos como este, um espetáculo de horrores e audiência. Fora as piadas de péssimo gosto.
    Fiquei extremamente chocado com o ocorrido. Só quem perdeu uma pessoa querida, sabe a dor que estes familiares estão passando.
    Que Deus perdoe essas pessoas que não conhecem a dor. Como disse o Pai: “Eles não sabem o que fazem!”

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